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segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Espaço da pupila (3) - por Ingrid Lemos

Peço licença a todas as mulheres Ghawazee, a estas ciganas egípcias, que ao decorrer dos últimos dois séculos, tiveram sua vivência e danças marginalizadas e subjugadas. E que mesmo assim, a sua arte e a dança resistiram através do tempo e se enraizou no que hoje conhecemos como dança do ventre. 

A mulher Ghawazee: ela nunca falou de si mesma, nunca representou suas emoções, presença ou história. É importante considerar que toda a informação que temos sobre a cultura árabe e egípcia, majoritariamente advém do olhar do homem ocidental. São relações históricas de dominação sobre a história de todo o Oriente que refletem até os dias de hoje. 

Por ter um enorme fascínio sobre a história das Ghawazee, fiz desta inquietação o meu trabalho final na faculdade dentro da disciplina e núcleo de Arte e Alteridade. Trago aqui bem resumidamente o que pesquisei. No final da leitura deixarei meu email para quem quiser me contatar e ler este meu trabalho.

Considerando que esta pesquisa, para mim, será algo sempre em construção. E isto só pôde se iniciar graças e através do contato e da troca somente teórica, que tenho com diversas bailarinas brasileiras, mas propriamente do Rio de Janeiro (citadas abaixo), sobre a dança Ghawazzee e sua cultura. E também através de diversos sites e blogs, alguns destas mesmas bailarinas (como o próprio blog da Hanna Aisha ♥). É sobre valorizar as trocas de saberes. 

Meus sinceros agradecimentos às bailarinas: Ana Lucia Mouta, Dária Lorena, Didi Aurora, Hanna Aisha, Nadja El Balady e Thereza de Oliveira.

ESTUDO GHAWAZEE

- Dados sociais e históricos

O povo cigano e suas manifestações culturais se espalharam e refletiram pela Europa, norte da África e pelo Oriente Médio durante séculos através da migração, tendo se iniciado entre os anos de 500 e 1000 depois de Cristo. Os ciganos, conhecidos como povo Roma, provêm da região de Gurajati, estado do norte da Índia. 

Mapa da migração cigana

Denota-se que, os ciganos que desceram pelo Oriente Médio transitaram por muitos séculos a partir, até atingir o Norte da África e por ali ainda se dividiram por diferentes regiões, como Egito, Argélia, Tunísia e Marrocos. Estes que imigraram para o Egito se estabeleceram em algumas regiões do território egípcio, mais propriamente na região norte do Egito.

Considerando que cada família cigana possuía seus costumes e também sua forma de dançar, e justamente levavam como tradição as vivências dentro da música e dança, eis que surgem as Ghawazee ou Ghawazy, que é um plural de “Ghazya” que significa bailarina. A dança Ghawazee é reconhecida como o estilo originário da dança do ventre. O termo Ghawazze referia-se antes especificamente a este povo nômade, mas passou a designar as bailarinas de rua das famílias cigano-egípcias. 

Durante a expedição africana de Napoleão em 1798, embora não se encontre registros oficiais sobre esta informação, conta-se que muitos soldados se dirigiam àquelas manifestações de dança com o termo “Danse Du Ventre”, e foi com este termo que as danças orientais se popularizaram na Europa e até os dias de hoje. Tais manifestações eram realizadas em praças públicas e não raro, as dançarinas Ghawazee se prostituíam também. 

Em contrapartida às Ghawazee, surgem as Awalim (ou já tinham surgido, e só se tornaram populares nesta mesma época. Não encontrei informação oficial datando essa questão), que se diferenciavam por serem cultas, contidas, por cantarem e recitarem poesia a fim de entreter a elite. 

No início do século XX, as Ghawazee da região Delta do Nilo, ao norte do Cairo, se misturaram às Awalin, pois dizer que era Ghawazee era inadequado. Muitos movimentos da dança baladi, vieram desta mistura Awalin e Ghawazzee do Delta do Nilo. 

No entanto, as Ghawazee, por serem consideradas indecentes e impuras, em 1834 proíbem suas performances no Cairo, por pressões religiosas. Então, foram deportadas, junto com famílias, para o sul do Egito. 

A maioria que imigrou para o sul, se estabeleceu na região Said, assim como o povo Nawari. Como expoentes desse povo, nos anos 60 se tornaram muito conhecidas as filhas de Youssef Mazin, por suas apresentações de música e dança típicas Ghawazee da região Said. Nos dias de hoje, são as mais famosas e com quem as bailarinas estrangeiras conseguem maior contato. 

- Irmãs Mazin e estilo Sambouti

Entende-se Ghawazee atualmente, como termo genérico voltado para bailarinas egípcias que dançavam nas praças públicas. De acordo com a bailarina Nadja El Balady, em um DVD da bailarina Aisha Ali. ela comenta que existiam 6 tipos diferentes de Ghawazee em regiões diferentes do Eito. Aos poucos, estes clãs foram se extinguindo e abandonando seus costumes. Atualmente apontam-se dois estilos que foram foi trazidos para o Ocidente, onde podemos ter um estudo teórico mais aprofundado: estilo Mazin e estilo Sombouti. 

Na dança Ghawazee não tem refinamento técnico. Entretanto, pensando a dança para o palco, sem perder sua essência, a principal característica do estilo é a improvisação. Podem ser improvisações solo, em dupla, em roda e em grupos. A dança é marcada por uma expressão alegre e festiva. 

Irmãs Mazin

- Figurino

No figurino é usado uma galabia de qualquer cor, com pastilhas ou lantejoulas bordadas, de assuit (principalmente pelas Ghawazee do estilo Sombouti), ou moedas, e lenços bordados cobrindo os cabelos. 

Detalhe de tecido Assuit

- Ritmos 

Os ritmos mais comuns são os ritmos Said, Laff, Maqsoum e Fallahi. 

- Movimentos da dança 

O estilo Mazin, que veio das irmãs Mazin, indentifica-se com movimentos bem marcados pelos cadenciados, como exemplo, os twists/torsos de quadril e muitos shimmies/tremidos de quadril e de peito, todos bem largos. Já os movimentos sinuosos são pouco usados, utilizam redondos grandes e oitos de quadril. Rababah, Mizmar, Tabla e Sagat, não podem faltar nenhum destes instrumentos. Por terem ligação com a dança e cultura Said, do sul do Egito, e podem incorporar alguns movimentos do Tahtib (dança com bastão). É muito comum usarem como acessórios bengalas ou bastão, girando-os, equilibrando na cabeça etc. 

Kharriya Mazin (foto) é a bailarina mais conhecida deste estilo, por ser uma das irmãs Mazin e por ainda estar viva. 

Já o estilo Sambouti, que provém da região Delta do Nilo, no norte do Egito, sabe-se que é muito difícil conseguir registros musicais autênticos, bem como conseguir assistir a esta dança, pois as Ghawazee desta região não existem mais. O que existem são professores e bailarinos, que não são de origem Ghawazee, onde ensinam e dizem como souberam que eram. Não existe uma fonte genuína. O estilo Sambouti é totalmente construído através da oralidade. Sabe que ao contrário do estilo Mazin, no Sambouti, percebe movimentos de mais mais impacto. Existe uma forte influência beduína, muito provavelmente pela proximidade geográfica. 

- O aprendizado da dança 

O ensino é bem restrito. Poucas professoram dominam de fato e um número ainda menor transmite em aula regular. Geralmente, a melhor maneira para quem deseja aprender a dança Ghawazee é em cursos voltados para a dança folclore. Muitas professoram optam esse método, pois pela “simplicidade” do requinte técnico da dança, no qual os movimentos já são basicamente incorporados na dança do ventre clássica e no baladi. E também pela falta de grande procura, já que é uma dança muito étnica e aqui no Brasil o estilo de dança do ventre clássica ainda é mais popular. 

- Referências

Blog Hanna Aisha: Dança Ghawazee. Disponível em: 
Acessado em: 10/07/2017

Blog Me Khelav: Ghawazee. Disponível em: 
Acessado em: 10/07/2017 

Blog Nadja El Balady – Opinião Alternativa: Apostila de Folclore Árabe. Disponível em: 
Acessado em: 10/07/2017 

Dança do Ventre - Sua História. Disponível em: 
http://www.mundodadanca.art.br/2010/03/danca-do-ventre-sua- historia.html?m=1 
Acessado em: 10/07/2017 

GATLIF, Tony. LatchoDrom. (documentário - 1993). Disponível em: 
Acessado em: 10/07/2017

Povo cigano: o direito em suas mãos. Disponível em: 
Acessado em: 10/07/2017. 

SAID, Edward W. Orientalismo: O Oriente como invenção do Ocidente. tradução Tomás Rosa Bueno. São Paulo. Companhia das Letras, 1990. 

WEB. Khaled Emam: Ghawazee e sua origem. Disponível em: 
Acessado em: 10/07/2017

Ingrid Lemos, 21 anos, carioca e estudante de Artes Visuais. Começou a se aventurar dentro da dança do ventre em 2014, e continua a estudar até hoje. Vem participando de mostras, concursos e eventos como integrante da Cia. Thereza de Oliveira, no Rio de Janeiro. Há um ano se iniciou no aprendizado da dança ATS® e Tribal Fusion com o grupo Loko Kamel Tribal Dance. Contato: ddlemos.art@gmail.com





segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Dança Fallahi

Olá, queridos leitores!
Estava devendo um post sobre Dança Fallahi!

Fallahim = "camponeses" em árabe. A maioria do povo baladi das cidades são fallahim. Eles estão localizados no Delta do rio Nilo, acima do Cairo.

A dança Fallahi tem variações regionais, mas a mais comum é a que se refere à colheita, pois foi difundida pela Trupe Reda. Nos shows folclóricos egípcios, eles costumam aparecer na parte cômica do show, pois eles são vistos como uma "família Buscapé". Uma analogia conosco, seriam os caipiras.


Dentro dessa dança, utiliza-se um vestido bem rodado até o pé com mangas compridas ou não de estampa lisa, listrada ou com motivos geométricos ou florais e com babados. Pode colocar flores na cabeça, véu, pompom.


O ritmo costuma ser o fallahi, que é um maksoum modificado, mais acelerado (ritmo árabe dos camponeses egípcios - dum kaka dum ka - pode ter variações) e binário e os gestos representando bo cotidiano como arar a terra, pegar água, cuidar de animais, etc. O Jarro é apenas um elemento cênico, como poderiam ser as flores, o cesto, etc.


Se possível, ao escolher sua música, procure saber a letra, caso seja cantada. Use aquelas em que exaltam seu país ou falam de seu cotidiano, pois são contagiantes e representam a alegria de um povo. É preciso habilidade, equilíbrio e boa expressão facial, pois é uma dança teatral.

Fontes: Anotações pessoais de aulas com professores variados (Maira Magno, Melinda James).

Bauce kabira,
Hanna Aisha

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Qual sua referência?

Olá, queridas e queridos!

Após assistir a essa palestra (grande, eu sei, vê aos poucos) do historiador Leandro Karnal, me inspirei para escrever esse post sobre referências:


Logo no início da palestra, ele diz que o estudante de História deve ler e saber determinadas obras clássicas, gostando ou não das suas ideias porque elas foram revolucionárias e mudaram o rumo da história.

O raciocínio se aplica exatamente à nossa profissão de bailarina de Dança do Ventre. Não importa se você só gosta de dançar derbacke e com espada, wings e rotina, baladi e pop. Se você quer ser uma boa professora e bailarina, você deve estudar, pelo menos, uma vez, todos os temas que circundam a Dança do Ventre, INCLUSIVE, os folclores árabes.

Assim, você ganha um olhar maior sobre sua profissão e te permite ESCOLHER que caminhos seguir com mais consciência, segurança e clareza.

Hoje, eu adoro dançar Fallahi e Mambouty porque me permiti estudar e EXPERIMENTAR NO MEU CORPO esses temas, que, a princípio, eu não estudaria. E o contrário também acontece! Você pode querer estudar determinada coisa e sair DETESTANDO dançá-la. Aconteceu comigo também, com a Dança Núbia.

Outro ponto de vista que podemos tirar da palestra dele é sobre a história da sua profissão. De onde veio, quem foram as pioneiras, como se dão as modas de roupa, qual é a estrutura da música, como a dança evoluiu?

Por fim, quais são suas referências de professoras, bailarinas e músicos? Quem te inspira artisticamente e quem é sua referência técnica? Qual seu objetivo como professora ou bailarina, amadora ou profissional? A gente não consegue ter isso claro se não temos senso crítico embasado em muito estudo, observação e disciplina, incluindo aprender a ouvir a pessoas de confiança.

Enfim. É uma dança que nasceu em um contexto de entretenimento de luxo no Oriente Médio e hoje, movimenta muito dinheiro, sustentando muitas famílias mundo afora.

Poderíamos falar horas e horas sobre isso. Mas, antes, sugiro que você veja a palestra e, depois, procure uma boa profissional para te orientar, não fazendo você perder seu tempo (e dinheiro), que são preciosos!

Bauce kabira,
Hanna Aisha 
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